.As Maravilhas do País de Alice.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

"Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
refazendo minhas forças, minha fonte, meus favores
tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores

tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho

estou podando meu jardim
estou cuidando de mim"
(Vander Lee)



“Meu jardim está de mudança. Tem uns moços estranhos que entram e saem a todo momento carregando embalagens grandes e pesadiças. Há escadas escoradas nas paredes e baldes de tintas pra todos os lados. O cheiro forte anuncia novidade e medo, porque eu não sei experimentar novidade sem receio. Nos corredores, ecos que inspiram canções distantes e nas janelas, faltam as cortinas com sua beleza velada. O piso respingado reclama da poeira, enquanto os lustres rugem de dentro de suas embalagens. Andam ansiosos para se derramarem pelo teto de sancas bem alvas. Os livros esperam aflitos serem colocados dentro de caixas de cor apagada e as louças tremem de medo de por acaso serem esquecidas por sob a pia. Choram a cama e o guarda-roupa pelo momento de serem desfeitos. Temem por um parafuso que possa vir a ser perdido. As paredes respiram aliviadas sem o peso bonito dos quadros e tudo parece ficar um pouco menor. As roupas ficam confusas diante de tanta arrumação de repente. São jogadas às pressas dentro de sacos espaçosos e barulhentos. Os sapatos se confundem aos pares na correria de não se largarem de perto das roupas. Os lençóis acordam atordoados de dentro do armário. Explicam as fronhas que se trata de mudança, como há muito não se via. Os talheres indagam se isso não seria precipitado. E a mesa, com sua sabedoria de anos, explica que os humanos são assim desde sempre. Precisam de espaço e pra isso não pensam duas vezes em mudar de suas tocas para outras mais seguras ou maiores ou mais bonitas. Da cozinha ela já sabe tudo de cor. Sempre é uma das últimas a seguir viagem, então por isso pode dizer com todas a palavras o que virá a seguir. Forram-se os tapetes. Levam-se os sofás. Por fim ficam apenas os armários vazios com suas marcas antigas e que trazem tantas lembranças. Uma mão de criança pequena. Um mosquito amassado faz tempo. O arranhão da escada que de repente se descobriu ser grande demais para estar ali naquele espaço. Tudo é motivo pra se lembrar e reviver. No ar, além da presença inquietante dos ácaros em folia, nostalgia e saudades pra todos os lados. Sentimento estranho do que vai ficar e do que está por vir. Será que a água é escassa? Será que enche quando chove? Será que entra ladrão? Mosquito não tem jeito, tem aonde quer que a gente vá. Vamos começar tudo de novo. Dessa vez queria uma tela na janela. Uma cama grande num quarto maior. Uma sala sem tv. Queria sossego por todos os cantos e uma Internet banda larga de valor. Entrar com o carro na garagem sem suar frio. Pintar com o cavalete na varanda. Dormir na rede na varanda. Ficar totalmente a toa na varanda. Ter, enfim, uma varanda. Porque é sempre dela que eu consigo ver o horizonte que me anuncia que pode ser que essa seja uma mudança definitiva pra esse país das maravilhas que eu estou prestes a conhecer.”

(.De mudança. 23/08/2007 – 22:53h)




“Meu jardim está de mudança. Tem uns moços estranhos que entram e saem a todo momento carregando embalagens grandes e pesadiças. Há escadas escoradas nas paredes e baldes de tintas pra todos os lados. O cheiro forte anuncia novidade e medo, porque eu não sei experimentar novidade sem receio. Nos corredores, ecos que inspiram canções distantes e nas janelas, faltam as cortinas com sua beleza velada. O piso respingado reclama da poeira, enquanto os lustres rugem de dentro de suas embalagens. Andam ansiosos para se derramarem pelo teto de sancas bem alvas. Os livros esperam aflitos serem colocados dentro de caixas de cor apagada e as louças tremem de medo de por acaso serem esquecidas por sob a pia. Choram a cama e o guarda-roupa pelo momento de serem desfeitos. Temem por um parafuso que possa vir a ser perdido. As paredes respiram aliviadas sem o peso bonito dos quadros e tudo parece ficar um pouco menor. As roupas ficam confusas diante de tanta arrumação de repente. São jogadas às pressas dentro de sacos espaçosos e barulhentos. Os sapatos se confundem aos pares na correria de não se largarem de perto das roupas. Os lençóis acordam atordoados de dentro do armário. Explicam as fronhas que se trata de mudança, como há muito não se via. Os talheres indagam se isso não seria precipitado. E a mesa, com sua sabedoria de anos, explica que os humanos são assim desde sempre. Precisam de espaço e pra isso não pensam duas vezes em mudar de suas tocas para outras mais seguras ou maiores ou mais bonitas. Da cozinha ela já sabe tudo de cor. Sempre é uma das últimas a seguir viagem, então por isso pode dizer com todas a palavras o que virá a seguir. Forram-se os tapetes. Levam-se os sofás. Por fim ficam apenas os armários vazios com suas marcas antigas e que trazem tantas lembranças. Uma mão de criança pequena. Um mosquito amassado faz tempo. O arranhão da escada que de repente se descobriu ser grande demais para estar ali naquele espaço. Tudo é motivo pra se lembrar e reviver. No ar, além da presença inquietante dos ácaros em folia, nostalgia e saudades pra todos os lados. Sentimento estranho do que vai ficar e do que está por vir. Será que a água é escassa? Será que enche quando chove? Será que entra ladrão? Mosquito não tem jeito, tem aonde quer que a gente vá. Vamos começar tudo de novo. Dessa vez queria uma tela na janela. Uma cama grande num quarto maior. Uma sala sem tv. Queria sossego por todos os cantos e uma Internet banda larga de valor. Entrar com o carro na garagem sem suar frio. Pintar com o cavalete na varanda. Dormir na rede na varanda. Ficar totalmente a toa na varanda. Ter, enfim, uma varanda. Porque é sempre dela que eu consigo ver o horizonte que me anuncia que pode ser que essa seja uma mudança definitiva pra esse país das maravilhas que eu estou prestes a conhecer.”

(.De mudança. 23/08/2007 – 22:53h)



Quarta-feira, Agosto 01, 2007



“Tudo começou com uma rolinha morta no meio da sala de aula. Eu falava de cores primárias quando ela do nada pareceu entrar pela janela se debantendo toda. As crianças correram de medo e de folia e tudo virou uma grande algazarra. Doeu chegar perto dela no chão e vê-la com o pescoço quebrado, tentando em vão voar. Será que ela não tinha visto a madeira da janela? Tanto lugar pra voar, porque foi cismar de entrar aqui nessa sala? Deu vontade de chorar e de sair correndo, mas eu fiquei e continuei minha aula. Abatida. Abalada. Uma parte de mim tinha morrido com aquela rolinha e eu não sabia porquê. Era apenas uma rolinha. E isso me fez pensar em tantas outras coisas que me fez desatar no choro, depois, em casa com calma. Tudo em mim estava seco como o tempo em Minas. Minhas mãos. Meus lábios. Meu rosto. Uma sensação profunda de desgosto. De abandono. De descaso. E então eu chorei por causa da rolinha. Chorei pela capa dos jornais de hoje que me chocaram. Chorei porque Isabel vai nascer num mundo que anda muito mais do que complicado. Me senti cansada demais. Velha demais. Sozinha ao extremo. Que mundo é esse que não me deixa ter o carro que eu quiser? A casa que eu quiser? Que vida é essa que limita meus passos impondo hora de voltar pra casa como na era da ditadura? Toque de recolher mascarado, caso eu não queira ser rendida por assaltantes armados bem no meio da minha calçada. Porque no dia de hoje segurança não é mais substantivo feminino que significava amparo, afastamento de todo o perigo. Hoje segurança é o nome de uma loja onde eu preencho um relatório e pago muito caro por um pouco de sossego pra sair com meu carro novo pela rua. E o meu choro tem esse gosto de desgosto tão profundo por se saber sem solução. Um desgosto em saber que a culpa não foi da rolinha, em entrar imprudente pela minha sala. Ela estava quieta em seu ninho, feito com muito esmero, sobre nosso ventilador. O que doeu muito mais foi saber que ela havia morrido por causa de um aluno que supostamente estava com um pouco de calor.”

(.Toque de Recolher. 01/08/2007.)


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